O escritório do departamento de Recursos Humanos de um frigorífico é o cenário da extenuante rotina de minha estrela. É lá que ela, sem qualquer indício de segregação, atende os que ganham dez, os que ganham um e os que sonham em ganhar um salário mínimo. É lá que a perco para o mundo. É lá!
Se a perco para o mundo, ele a ganha de mim. E só ganha com isso. Suprimo minha megalomania e concedo aos vis a benevolência de que prescindem, a complacência que passaram a desconhecer, o amor que raramente merecem. Consolo as insípidas lágrimas noturnas de minha estrela para que ela possa, ao despertar de seu sonho, suscitar sorrisos e bem-estar diuturnos. Envolvo-a num abraço confortante, salvaguardando seus 1,63m com meus membros superiores magros e longos; reluto em expressar-lhe meus infortúnios, decepções e histerias; reajo circunstanciadamente, contrabalançando meus dizeres e suas consequências; relevo o que não me apetece e deixo que desça cortando goela abaixo; e o último ato da comprovação de minha compaixão aos vis: esquivo-me da rotina de minha estrela e sigo o rumo de meu exílio. Distancio-me pregando tacitamente que aprimoraria o quanto possível o esboço por ela iniciado há 19 anos. Minha estrela agora é integralmente do mundo. E eu, que finalmente o ganhei, arrefeço diante de suas efervescências convidativas.
Graças a D… Graças a mim, disponho de tolerância e serenidade imensuráveis, que me conferirão a capacidade de avistar com naturalidade a implosão de minha obra inacabada. Ressurgirá o que há muito fora por mim presumido: a reticência de minha estrela e seu reluzir incessante. Queixarei-me apenas de minha efemeridade, incumbida de abreviar minha contemplação e minha idolatria somente pelo bel-prazer de me colocar a sete palmos do chão, a feder.