Text 20 Sep estrela reticente

       O escritório do departamento de Recursos Humanos de um frigorífico é o cenário da extenuante rotina de minha estrela. É lá que ela, sem qualquer indício de segregação, atende os que ganham dez, os que ganham um e os que sonham em ganhar um salário mínimo. É lá que a perco para o mundo. É lá!

       Se a perco para o mundo, ele a ganha de mim. E só ganha com isso. Suprimo minha megalomania e concedo aos vis a benevolência de que prescindem, a complacência que passaram a desconhecer, o amor que raramente merecem. Consolo as insípidas lágrimas noturnas de minha estrela para que ela possa, ao despertar de seu sonho, suscitar sorrisos e bem-estar diuturnos. Envolvo-a num abraço confortante, salvaguardando seus 1,63m com meus membros superiores magros e longos; reluto em expressar-lhe meus infortúnios, decepções e histerias; reajo circunstanciadamente, contrabalançando meus dizeres e suas consequências; relevo o que não me apetece e deixo que desça cortando goela abaixo; e o último ato da comprovação de minha compaixão aos vis: esquivo-me da rotina de minha estrela e sigo o rumo de meu exílio. Distancio-me pregando tacitamente que aprimoraria o quanto possível o esboço por ela iniciado há 19 anos. Minha estrela agora é integralmente do mundo. E eu, que finalmente o ganhei, arrefeço diante de suas efervescências convidativas.

       Graças a D… Graças a mim, disponho de tolerância e serenidade imensuráveis, que me conferirão a capacidade de avistar com naturalidade a implosão de minha obra inacabada. Ressurgirá o que há muito fora por mim presumido: a reticência de minha estrela e seu reluzir incessante. Queixarei-me apenas de minha efemeridade, incumbida de abreviar minha contemplação e minha idolatria somente pelo bel-prazer de me colocar a sete palmos do chão, a feder.

Text 20 Jul 3 notes perdoai, eles não sabem o que fazem

     Partirei para nunca mais voltar. Enclausurei-me na insegurança, era inevitável. Há muito tempo isso perdura, preferi nem quantificar. Sabes disso, minha amiga. Sabes muito bem que tua presença em minha vida é o que de mais incoerente me ocorreu. Mas quem disse que era pra ser coerente? Isso nunca foi uma regra. Detesto regras – desde que não sejam minhas.
     Alçarei vôo. Apaga-se uma estrela e cria-se um mito. Este sim, imbatível. E já que tenho por meta a infalibilidade, permearei por quaisquer confins visando alcançá-la… Se nesta vida não for possível, mandar-me-ei para outra. Permita-me mergulhar em tua alva textura. Procuro a onisciência, podes me proporcionar? Não? Então dê-me apenas segurança e não permita que eu pegue o telefone. Entre por um dos sete orifícios de minha cabeça e conforte meu coração. Caso seja necessário, faça-o padecer. Só não o telefone.
     Falhaste. Satisfeita? Perdôo-te. Talvez precisemos nos aproximar um pouco mais. Sinto-te distante. Não tens mais o mesmo efeito sobre mim. Venha, podes entrar, faça de meu corpo tua casa. Venha maior, não vês que não és mais o suficiente? Curvo-me e concebo-te.Agradabilíssimo o nosso momento de fusão. Difunda-te por minhas vísceras e transforme-as.Vivamos como uma só. Ou melhor, um uníssono, pois do som vivi. Não existiria som se não houvesse o silêncio. Portanto, cale-me. Encerro minha estadia ao som de um tiro. Eu dei o tiro. Quem matou foi Deus.

Text 19 Jul 2 notes paraíso das hienas

Onde está, entidade metafísica e divina, o pão de que sua multidão faminta e sedenta não dispõe? Novenas não pagam ao homem da venda; só por piedade não vale a pena subir de joelho as escadarias. Caso possa me escutar, parabenizo-te. Despertaste no mais ínfimo ser humano o prazer de (sobre)viver; sua equipe-camaleão, manuseável e transigível, encontrou o mais oportuno momento para redefinir a “verdade absoluta” e suscitaste a aflição nos que, porventura, viessem a te questionar.
Por mais que meus olhos perpassem os cantos e frestas visando - não - serem contrapostos a provas palpáveis e irrefutáveis, não será necessário sequer três dias para que minhas dúvidas e angústias ressuscitem e voltem à tona. Aproveite o tempo para discutir com vosso filho e com o espírito santo uma saída plausível…

Text 16 Jun 2 notes ausência de engarrafamento

        O despertador apita 7:45. O corpo hesita em levantar, como se estivesse carregando todo o pecado do mundo. Se sente imundo. Passou por bocas e camas diversas. O que, certamente, mais durara nos últimos dias é o gosto de cerveja e cigarros amanhecidos. Estático, senta em sua cama sem pôr os pés no chão. Analisa-os. Unhas por fazer. Vai até o espelho. Cabelos sebosos. Sorri. Dentes amarelados. Despe-se. Saliências indesejadas. Por dentro, podridão, se não fosse oco.  Procura uma camiseta que pareça limpa. 7:53. Conta as moedas para a condução. Passa pela sala em permanente desordem. Procura a chave, abre a porta. Chama o elevador. Dá o diário “bom dia” não correspondido. Analisa o modo das pessoas analisarem o modo das pessoas. Porta 5, sua preferida.  Aposta consigo mesmo que não terá um banco para sentar. Perde. Descansa. Nota que pouco repara no caminho até a faculdade. Cai em si. Trocou uma rotina por outra, que lhe proporciona refutável prazer. Coitado. Como diria seu chará, caíra no Canto de Ossanha. O ônibus cruza um sinal amarelo. Reflete. Repara na aspereza de sua mão. Repara que não parou de roer as unhas. Repara que repara demais. Desce. Caminha. Abre o maço, procura o isqueiro. Tosse. Coça os olhos. Pisa somente em paralelepípedos cinza-escuro. Avista uma igreja. Não faz o sinal da cruz. É cedo demais para devoção à Santíssima Trindade. É tarde demais para conquistar seu lugar no paraíso.

Video 13 Jun 2 notes

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